ANÁLISE DE TEXTOS

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Amor de Perdição - Exercícios com gabarito

Este artigo continua as atividades sobre a estética romântica. No artigo anterior vocês viram cinco exercícios sobre o assunto e puderam conferir o gabarito com possíveis respostas. Me surpreendi com a repercusão nas redes sociais quando divulguei o link daquele artigo e isso me levou a reunir mas algumas atividades, mas agora sobre um fragmento de Amor de Perdição.

conceitos básicos de literatura

>> Leia o texto transcrito e responda às questões de 1 a 10.

Amor de perdição

Simão Botelho amava. Aí está uma palavra única, explicando o que parecia absurda reforma aos dezessete anos.
Amava Simão uma sua vizinha, menina de quinze anos, rica herdeira, regularmente bonita e bem-nascida. Da janela de seu quarto é que ele a vira pela primeira vez, para amá-la sempre. Não ficara ela incólume da ferida que fizera no coração do vizinho: amou-o também, e com mais seriedade que o usual de seus anos. [...]
O magistrado e sua família eram odiosos ao pai de Teresa [de Albuquerque], por questões de litígios, em que Domingos Botelho lhes deu sentenças contra. [...] É, pois, evidente que o amor de Teresa, declinando de si o dever de obtemperar e sacrificar-se ao justo azedume de seu pai, era verdadeiro e forte.
E este amor era singularmente discreto e cauteloso. Viram-se e falaram-se três meses, sem darem rebate à vizinhança, e nem sequer suspeitas às duas famílias. O destino que ambos se prometiam era o mais honesto: ele ia formar-se para sustentá-la, se não tivessem outros recursos; ela esperava que seu velho pai falecesse para, senhora sua, lhe dar, com o coração, o seu grande patrimônio. [...]
Na véspera de sua ida para Coimbra, estava Simão Botelho despedindo-se da suspirosa menina, quando subitamente ela foi arrancada da janela. O alucinado moço ouviu gemidos daquela voz que, um momento antes, soluçava comovida por lágrimas de saudade. Ferveu-lhe o sangue na cabeça; contorceu-se no quarto como o tigre contra as grades inflexíveis da jaula. Teve tentações de se matar, na impotência de socorrê-la. As restantes horas daquela noite passou-as em raivas e projetos de vingança. Com o amanhecer esfriou-lhe o sangue, e renasceu a esperança com os cálculos.
Quando o chamaram para partir para Coimbra, lançou-se do leito de tal modo transfigurado, que sua mãe, avisada do rosto amargurado dele, foi ao quarto interrogá-lo e despersuadi-lo de ir enquanto assim estivesse febril. Simão, porém, entre mil projetos, achara melhor o de ir para Coimbra, esperar lá notícias de Teresa, e vir a ocultas a Viseu falar com ela. Ajuizadamente discorrera ele; que a sua demora agravaria a situação de Teresa.

BRANCO, Camilo Castelo. Amor de perdição. São Paulo: Ática, 1994. p. 26. (Fragmento).

  • Incólume: ilesa, inalterada.
  • Litígios: disputas legais.
  • Declinando: recusando, tirando (de si).
  • Obtemperar: concordar.
  • Sem dar rebate: sem se denunciar.
  • Despersuadi-lo: fazê-lo mudar de opinião, dissuadi-lo.
  • Viseu: cidade portuguesa.

1.   Nesse trecho, o narrador apresenta o nascimento do amor entre Teresa e Simão Botelho. Como surge esse sentimento?

►  O que, no trecho, revela que esse amor é um sentimento arrebatado, característico dos romances românticos? Justifique.

►  Há, no trecho, elementos típicos que fizeram esse modelo de narrativa cair no gosto do público. Quais são eles?

2.    O narrador descreve a jovem por quem Simão se apaixonou. Que características de Teresa ele destaca?

►  De que maneira algumas dessas características revelam a sociedade da época retratada nos romances românticos?

3.   No momento em que Simão e Teresa se despedem em razão da partida do jovem para Coimbra, a moça é "arrancada" da janela. Que sentimentos esse fato desperta em Simão?

►  O narrador descreve a reação do jovem diante desse fato. Como essa descrição revela a natureza arrebatada e passional do amor que ele sente por Teresa?

4.   Simão Botelho, antes de se apaixonar por Teresa, era um jovem de temperamento violento, cercado por más companhias e constantemente envolvido em brigas. Leia este outro trecho do romance.

No espaço de três meses fez-se maravilhosa mudança nos costumes de Simão. As companhias da ralé desprezou-as. Saía de casa raras vezes, ou só, ou com a irmã mais nova, sua predileta. [...] Em casa encerrava-se no seu quarto, e saía quando o chamavam para a mesa. [...]
Simão Botelho amava. Aí está uma palavra única, explicando o que parecia absurda reforma aos dezessete anos.

BRANCO, Camilo Castelo. Amor de perdição. São Paulo: Ática, 1994. p. 25-26. (Fragmento).

►  O narrador revela que o amor provoca em Simão uma grande transformação. Qual é ela?

►  Explique de que modo essa transformação confere a Simão as características que o definirão como um herói romântico.

5.  A transformação vivida por Simão é exigida por uma concepção de amor que define os romances românticos. Que concepção é essa? Explique.

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Gabarito dos exercícios

1. Simão vê Teresa pela primeira vez da janela de seu quarto e por ela se apaixona "irremediavelmente", sendo correspondido em seu amor. Durante três meses, o contato dos jovens se dá dessa forma, revelando a pureza e a inocência desse sentimento: veem-se pelas respectivas janelas de seus quartos, trocam juras de amor e fazem promessas de um futuro juntos.

►  O fato de ambos se apaixonarem à primeira vista de maneira irremediável, como sugerem os trechos a seguir: "ele a vira pela primeira vez, para amá-la sempre"; "amou-o também, e com mais seriedade que o usual de seus anos". O arrebatamento desse amor pode ser identificado, ainda, no desespero de Simão diante da violência com que sua amada é retirada da janela através da qual os jovens se despediam.

►  O amor impossível entre um rapaz e uma moça pertencentes a famílias "inimigas"; a força do sentimento que leva Teresa e Simão a ignorarem as oposições familiares; a separação do casal e o sofrimento que isso gera nos dois jovens.

2. O narrador descreve Teresa como uma jovem de "quinze anos, rica herdeira, regularmente bonita" e pertencente a uma boa família ("bem-nascida").

►  A referência ao fato de Teresa ser uma rica herdeira e "bem-nascida" revela que a moça e sua família têm prestígio e pertencem à burguesia, grupo social geralmente retratado nos romances românticos.

3. Ao ver sua amada ser "arrancada" da janela, Simão é tomado por desespero, fúria e impotência, já que nada pode fazer para "resgatá-la". Nessa noite ele perde o sono, pensando em "projetos de vingança" contra quem impõe tal sofrimento a Teresa.

► O narrador descreve com exagero as reações de Simão por meio de adjetivos ("o alucinado moço") e comparações ("contorceu-se [...] como o tigre contra as grades"). Isso revela o desespero do jovem ao se ver separado de Teresa e, depois, no momento de partir ("lançou-se do leito [...] transfigurado"). Os gestos e pensamentos do rapaz, na cena, enfatizam a natureza arrebatada de seus sentimentos.

4. Simão passa a ter uma vida calma, abandona as más companhias e a vida desregrada, tornando-se quase um recluso.

► O amor por Teresa promove uma espécie de purificação em Simão, apagando os indícios do comportamento desregrado que teve antes de conhecer a jovem. Ao adotar uma vida tranquila, distante de brigas e de companhias inadequadas, o jovem passa a agir de acordo com os valores positivos que se associam ao herói romântico: recolhimento, caráter nobre, correção moral.

5. No trecho, o amor é apresentado como o meio para a transformação e redenção do indivíduo. É esse sentimento que regenera o ser humano quando a razão se mostra incapaz de fazê-lo. No caso de Simão, é o amor por Teresa que o torna uma pessoa melhor, merecedora do afeto de sua amada.

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Exercícios com gabarito sobre a estética romântica

No artigo abaixo você verá alguns exercícios sobre a estética romântica: idelização e arrebatamento. São cinco exercícios sobre o Romantismo em Portugal. Confira também o gabarito dos exercícios para ver como anda seu desempenho.

A HISTORIA TRÁGICA DE UM AMOR DESMEDIDO

A Dama das Camélias narra a história de um sentimento tão forte que enfrenta as barreiras sociais e morais de sua época. A paixão entre Marguerite Gautier, uma bela cortesã dos salões parisienses, e Armand Duval, um jovem dividido entre o amor e o preconceito, é o tema desse romance de Alexandre Dumas Filho, narrado em primeira pessoa por um narrador-testemunha. Os dois jovens se apaixonam e, contra toda a hipocrisia da sociedade burguesa da época, vivem sua história de amor. Quando Marguerite decide deixar de ser amante para se tornar mulher, surgem os obstáculos sociais: os amantes separam-se e ela, enfraquecida pela tuberculose, morre longe de seu amado.

>> O texto a seguir, extraído de A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, é uma carta da protagonista ao seu amado, quando já estavam separados, e enviada pouco antes de a moça morrer. Leia o trecho atentamente e responda às questões de 1 a 5.

A Dama das Camélias

Meu querido Armand, recebi a sua carta [...]. Sim, meu amigo, estou doente, e doente de uma dessas doenças que não perdoam. Mas o interesse que você ainda tem por mim diminui bastante o meu sofrimento. Certamente não viverei tempo suficiente para segurar a mão que escreveu a gentil carta que acabo de receber e cujas palavras me curariam, se algo pudesse me curar. Não o verei, pois estou muito perto da morte e centenas de léguas separam você de mim, pobre amigo! A sua Marguerite de antigamente está bem mudada, e que você não a torne a ver talvez seja melhor do que vê-la tal como ela está. Você me pergunta se eu o perdoo. Oh, de todo o coração, querido, pois o mal que você quis me fazer nada mais era do que uma prova do amor que tinha por mim. Faz um mês que estou na cama, e tenho tanto apreço à sua estima que cada dia escrevo o diário da minha vida, desde o momento em que nos separamos até o momento em que não mais terei forças para escrever.
Se o interesse que tem por mim é verdadeiro, Armand, na sua volta, vá à casa de Ju-lie Duprat. Ela lhe entregará o diário. Nele você encontrará a razão e a explicação daquilo que se passou entre nós. [...]
Caso você não mandasse notícias, ela estava encarregada de entregar-lhe estes papéis quando de sua chegada na França. Não fique agradecido. Este retorno cotidiano aos únicos momentos felizes de minha vida me faz um bem enorme, e se você encontra nesta leitura a explicação do passado, eu mesma encontro nela um contínuo alívio.
Queria deixar para você alguma coisa que me trouxesse sempre à sua mente, mas tudo se encontra na minha casa, e nada me pertence.
Compreende, meu amigo? Vou morrer e do meu quarto ouço caminhar no salão o guarda que meus credores lá colocaram para que nada seja levado e para que nada me reste, caso eu não morra. Espero que eles aguardem pelo meu fim para iniciar a venda.
Oh, os homens são impiedosos! Ou, talvez me engano, é Deus que é justo e inflexível.
Pois bem, meu amado, você virá ao meu leilão, e comprará alguma coisa, pois, se eu separar para você a menor coisa que seja, e se alguém souber disso, serão capazes de acusá-lo por desvio de objetos confiscados.
Triste a vida que eu deixo!
Deus seria bom, se permitisse que eu o visse novamente antes de morrer! Segundo todas as probabilidades, adeus, meu amigo. Perdoe-me se não escrevo mais longamente, mas aqueles que dizem que me curarão me esgotam com sangrias e minha mão se recusa a escrever mais.

Marguerite Gautier

DUMAS FILHO, Alexandre. A Dama das Camélias. Tradução: Caroline Chang. Porto Alegre: L&PM, 2004. p. 32-34.

1. Marguerite, a cortesã por quem Armand se apaixona perdidamente, separa-se dele para não comprometer o futuro do jovem. A moça toma essa atitude em nome do amor que sente por ele. Que elementos da carta revelam o amor de Marguerite por Armand?

►  De que maneira o fato de Marguerite abandonar Armand, apesar do sentimento que tem por ele, revela a força desse amor e o caráter da moça?

2. No trecho citado, a situação em que se encontra Marguerite, física e financeiramente, contribui para intensificar o tom "dramático" da narrativa, algo típico dos romances românticos. Explique.

3. Depois de ser abandonado por Marguerite sem saber os motivos que a levaram a tomar tal atitude, Armand fica cego de ódio e tenta vingar-se, humilhando-a em virtude de sua condição de cortesã. Depois, escreve à jovem pedindo perdão. Releia a resposta dela ao pedido dele.

"Você me pergunta se eu o perdoo. Oh, de todo o coração, querido, pois o mal que você quis me fazer nada mais era do que uma prova do amor que tinha por mim."

► Considerando o trecho transcrito, explique como Marguerite avaliou a conduta de Armand.

4.   Desde o agravamento de sua doença, Marguerite passa a dedicar-se a registrar seus dias em um diário. Com que objetivo ela faz isso?

► Que tipo de sentimento a escrita do diário gera na personagem?

5. A Dama das Camélias abandona a vida de cortesã em nome de seu amor por Armand, mas é obrigada a separar-se do jovem. No final, morre distante dele sem poder desfrutar da felicidade dessa paixão. De que maneira tal desfecho revela a concepção moralista do romance, determinada pelo contexto em que o autor viveu?

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Gabarito dos exercícios

A estética romântica: idelização e arrebatamento. Romantismo em Portugal

1. O tom carinhoso da carta, o tratamento afetuoso que Marguerite dispensa a Armand ("meu amigo", "querido", "pobre amigo"), além das declarações sobre a alegria que sente por ter recebido uma carta de seu amado e o desejo de revê-lo ainda uma vez antes da morte são evidências do amor que ela sente por ele.

► Sendo uma cortesã, Marguerite sabe que poderia comprometer o futuro e a posição de Armand na sociedade preconceituosa da época. A decisão de abandoná-lo e renunciar à sua paixão, pondo a felicidade dele acima da sua, demonstra a força de caráter e a pureza do amor da moça pelo rapaz.

2. Nessa passagem, Marguerite está morrendo e, mesmo nessa situação, é "vigiada" pelos credores que confiscaram seus bens em nome das dívidas contraídas por ela. Essas circunstâncias conferem à trama e à história de amor impossível o tom "dramático" que tanto agradava os leitores da época.

3. Marguerite vê, nas tentativas de Armand de fazê-la sofrer, uma prova do amor que o jovem nutre por ela. Por isso, perdoa-o e parece, inclusive, alegrar-se com o "mal" que ele lhe quis impingir. O perdão sincero da moça ao rapaz prova, mais uma vez, a grandeza do amor que os une.

4. Marguerite escreve o diário para que Armand conheça "a razão e a explicação" de ela o ter abandonado. Depois de sua morte, esses registros seriam entregues ao rapaz por uma amiga dela para que ele pudesse compreender o abandono da cortesã, a despeito do amor que sentia por ele.

► Em sua carta, Marguerite deixa claro que escrever o diário faz-lhe um bem enorme, já que garante a ela o "retorno cotidiano aos únicos momentos felizes" de sua vida. Se Armand encontrará nos registros "a explicação do passado", a Dama das Camélias afirma encontrar na leitura do que escreveu "um contínuo alívio".

5. No romance, o amor é apresentado como o sentimento capaz de regenerar o ser humano. Marguerite encontra sua redenção no amor de Armand, mas não a possibilidade de desfrutar desse amor. Sua morte, no final do romance, revela que a sociedade da época, da qual Dumas é a voz nesse momento, não aprovaria um final feliz para uma cortesã, ainda que ela tivesse sido purificada pelo amor.

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Exercícios sobre Biografia – questões com gabarito

No artigo de hoje faremos alguns exercícios sobre outro gênero textual bastante comum no nosso dia a dia. A Biografia é um gênero textual que explora o texto descritivo sem deixar de lado a narrativa. Por isso é importante reconhecer suas características já que é um texto cada vez mais usado sobretudo pelas pessoas que pesquisam sobre a vida de alguma personalidade. Para todos que estão estudando para o Enem ou vestibulares, conhecer os vários gêneros textuais é essencial para fazer bem a redação e responder as indagações da prova.

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Exercícios sobre gênero textual Biografia

>> Leia os textos transcritos a seguir para responder às questões de 1 a 8.

Texto 1

Tiros no Dakota

Um, dois, três... cinco tiros na noite de 8 de dezembro de 1980, em Nova York. Estilhaços de vidro.
Um homem — casaco de couro, óculos e um punhado de fitas cassete debaixo do braço — esboça, cambaleante, seus últimos passos em direção ao Edifício Dakota. Por fim, cai, não longe da arcada externa do edifício, diante do porteiro do prédio, Jay Hastings.
— Fui baleado! — consegue balbuciar. Contorce-se, tosse, vomita sangue, pedaços de tecido.
Interrompendo a leitura de um livro, no elegante pequeno hall de mogno do Dakota, Jay Hastings, estarrecido, aciona o alarme para chamar a polícia e corre para junto do corpo agonizante.
Tira-lhe os óculos, que parecem fazer pressão sobre seu rosto, despe-se de seu paletó azul e o cobre. O sangue jorra em abundancia do peito — por isso, tira a gravata para fazer um torniquete, mas não há como fazer torniquete algum.
Retorna ao seu posto, apanha o telefone, disca 911 para pedir uma ambulância, um médico, ajuda.
De volta, ajoelha-se: olha com ternura para aquele homem cujas canções embalaram sua juventude, negando-se mentalmente a inserir aquela cena na sua extensa coleção de lembranças:
— Tudo bem; você vai ficar bom — implora.
23 de outubro de 1980, Havaí: um jovem alto e de compleição forte, 25 anos, pede afastamento do condomínio de alto luxo em Honolulu, onde trabalha como segurança. Ele assina a demissão com um nome falso e, quando lhe perguntam se quer outro emprego, simplesmente responde:
— Não, já tenho um trabalho para fazer.
Quatro dias depois, graças à sua antiga ocupação, adquire sem muita dificuldade um revólver calibre 38 numa casa de armas localizada a um quarteirão da chefatura de polícia da capital havaiana, e segue para Nova Iorque.
Na frente do Dakota, enquanto espera pelo seu ídolo no pátio reservado aos fãs dos moradores do prédio, as horas se arrastam, naquela segunda-feira.
Finalmente, quando ele passa, a caminho do estúdio Hit Factory, onde estava sendo aguardado pelo produtor Jack Douglas para mixar a música Walking on Thin Ice, com guitarras e teclados bem ao estilo disco music, estende-lhe o disco Double Fantasy e pede um autógrafo.
Agradece, mas não vai embora: são quase 17h — a noite será longa.
Para se distrair, leva debaixo do braço um livro empolgante — O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, no qual se identificou cegamente com o personagem principal, um adolescente revoltado que odeia falsidade. Se preciso, farão companhia um ao outro, madrugada adentro.
Mas eis que a limusine que o levara volta em pouco tempo. Para na frente do Dakota; a porta se abre.
Acompanhado da mulher, o homem de óculos e blusão de couro não demorou muito: passava das 22 horas quando se despediu da equipe do estúdio, prometendo voltar na manhã seguinte. Dispensou até mesmo o jantar marcado no restaurante Stage Deli e decidiu voltar para casa: queria ver o filho, Sean, antes que ele dormisse.
O homem desce do carro; o jovem o interpela pelo nome:
— Mister...?
A miopia os aproxima na escuridão.
Então, o desconhecido saca a arma do casaco, agacha-se na posição de tiro e dispara, quase a queima-roupa.
Um, dois, três... cinco tiros na noite de 8 de dezembro de 1980, em Nova York.
Gritos desesperados, uma sirene, uma radiopatrulha rasgando a cidade a caminho do St. Luke's Roosevelt Hospital.
No pátio reservado aos fãs dos moradores do Dakota, Mark David Chapman, cidadão norte-americano, aguarda calmamente a polícia: quando Steve Spiro, primeiro policial a chegar ao local do crime, apareceu, Mark deixou cair o revólver, não ofereceu resistência, entregou-se.
— Você sabe o que fez? — pergunta-lhe um dos porteiros do Dakota.
— Eu matei John Lennon.

COHEN, Marleine. John Lennon. São Paulo: Globo, 2007. p. 9-11. (Col. Personagens que Marcaram
Época). (Adaptado).

Texto 2

Pobre menino Winnie

A espessa fumaça levantada pelo bombardeio aéreo sobre Liverpool, Inglaterra, mal tinha se dissipado naquele 9 de outubro de 1940, quando, às 18h30, o choro de um recém-nascido ecoou nos corredores do Oxford Street Maternity Hospital.
Depois de um complicado trabalho de parto, Julia Stanley — uma típica jovem dona de casa de classe média baixa — dava à luz seu primeiro filho, o menino John Winston, para quem o pai Alfred, marinheiro e músico amador, só acenaria para desejar as boas-vindas do outro lado do oceano.
Apesar de ausente — naquele e em tantos outros anos —, Fred cuidou de garantir a linhagem e o provento do guri, assim que ele nasceu: algo portentoso, seu nome de batismo, John Winston Lennon, era uma homenagem ao bisavô Jack (John) Lennon, que havia integrado o grupo musical Andrews Robertson's Kentucky Ministrels, e ao prestigiado primeiro-ministro Winston Churchill, que, naquele tempo, zelava pela soberania da Grã-Bretanha e conduzia os destinos da nação, num mundo ameaçado pelo nazismo.
Em breve, porém, a distância entre Julia e Fred selaria — a pedido dela — a definitiva separação entre eles e, a partir de 1942, o dinheiro para o sustento do pequeno John minguou. [...]
Imersa em dificuldades financeiras, Julia — que, naquele momento, já trabalhava, bebia e fumava — se viu à deriva diante da tarefa de educar o menino. Preferiu casar-se novamente e entregar a tutela de John à irmã Mary Elizabeth — a tia Mimi — e seu marido George Smith, um austero casal de meia-idade que não tinha filhos.
Coube assim ao tio George ensinar o pequeno John Winston a ler e escrever e levá-lo vez ou outra ao cinema. [...]
Assim, antes de completar 6 anos, John Lennon já tinha provado o dissabor de ser abandonado pelos pais e vivia com os tios no bairro de Woolton, na 251, Menlove avenue, local de grande concentração de médicos e advogados e distante apenas 5 quilômetros da casa da mãe.
— Eu era um autêntico menino suburbano, cheiroso e bem-cuidado, meio palmo acima da classe social de Paul, George e Ringo, que viviam em moradias subsidiadas pelo governo. Nós, não: tínhamos nossa casa e nosso jardim. Assim, eu era algo como um fruto proibido, em comparação com eles... — contaria mais tarde John, com suas próprias palavras.
Apesar disso, e desce muito cedo, Lennon se tornou "o garoto que os pais não queriam ao lado de seus filhos": tinha apenas 6 anos quando foi expulso pela primeira vez de uma creche porque aterrorizava as menininhas. [...]
Os anos 50 arrebataram este jovem transviado, acentuaram seu sarcasmo e irreverência e o lançaram definitivamente no submundo: John Lennon vestiu-se de couro e se empapuçou de gomalina, abraçou o skiffle, mistura de rock e música popular inglesa que virou mania na Grã-Bretanha, ganhou da tia Mimi um violão e enfrentou a primeira morte na família — a do tio George, em 1953, cuja ausência incentivou sua mãe Julia a se aproximar um pouco mais dele, numa relação de franca e despretensiosa camaradagem. Coube a ela, então, lhe ensinar os primeiros acordes de guitarra e encorajá-lo a seguir adiante com a música.
— Isso é bom como hobby, mas você nunca vai ganhar a vida assim. — instruía a tia Mimi, ao ver o sobrinho dedilhar o instrumento até sangrar os dedos.
Mas o rock expressava seu inconformismo, sua dor.
E lhe trazia de volta a companhia da mãe — até que o ano de 1958 a extirpou definitivamente de sua vida, depois que um policial bêbado chamado Eric Clague a atropelou na frente de casa e a matou aos 44 anos de idade, no dia 15 de julho. [...]
John Lennon tinha então 17 anos:
— Minha primeira lembrança da vida é a de um pesadelo — confessaria, amargurado, na autobiografia dos Beatles.
De fato, o sonho ainda estava em gestação.

COHEN, Marleine. John Lennon. São Paulo: Globo, 2007. p. 23-25. (Col. Personagens que Marcaram Época)

Gomalina: produto obtido pela mistura entre vaselina e goma, utilizado para a fixação dos cabelos.
Extirpar: eliminar, arrancar.

Texto 3

E, então, o sonho acabou

Na segunda metade dos anos 60, mudanças palpáveis marcaram a forma como os Beatles passaram a se apresentar — num prenúncio do que viria a acontecer.
Os rapazes dispensaram o corte de cabelo característico e os ternos iguais e cada qual tratou da própria aparência como bem entendia. John assumiu a miopia e substituiu as lentes de contato pelos óculos; Paul cobriu as faces com uma barba cerrada. A nova aparência dos Beatles permitiu não só trazer à tona a verdadeira personalidade de cada um, como também acentuar as diferenças entre eles: assim, de alguma forma, a unidade dos Beatles se rompeu.
Não bastasse, a banda decidiu abandonar os shows e se concentrar na produção em estúdio. Essa decisão, que culminou com um último espetáculo no Candlestick Park, em São Francisco, Estados Unidos, no dia 29 de agosto de 1966, foi mal recebida pelos críticos. Na ocasião, Brian Epstein também se queixou: "O que será do empresário de uma banda de rock que não se apresenta ao vivo?". [...]
Os Beatles só voltaram a se reunir em 1969, em torno do projeto Get back, um filme--documentário que pretendia registrar todo o processo de gravação de um álbum. John, Paul, George e Ringo também estavam inclinados a fazer um show ao vivo, ao final das gravações.
Durante o trabalho, porém, a tensão entre os integrantes da banda aumentou novamente e o filme só fez documentar, na prática, o seu esfacelamento. No fim do filme, os músicos decidiram improvisar um palco no telhado do estúdio e tocar algumas músicas para os pedestres que circulavam nas calçadas. Naquele dia, nem mesmo a polícia conseguiu interromper a apresentação.
O projeto Get back não agradou e foi arquivado. Pouco depois, foi lançado com outro nome: Let it be.
Os Beatles se reuniram novamente, e pela última vez, nos estúdios da Apple para gravar o álbum Abbey road — o disco mais vendido do grupo. Em março de 1970, Paul McCartney dava uma entrevista anunciando o fim dos Beatles. [...]
Sete anos depois — mais de um bilhão de discos vendidos, 13 álbuns lançados, turnês fantásticas e os maiores prêmios da indústria do entretenimento —, o sonho terminava. John, Paul, George, Ringo: uma sinfonia acabada.

COHEN, Marleine. John Lennon. São Paulo: Globo, 2007. p. 64, 75. (Col. Personagens que Marcaram Época).

1. O texto 1 trata de um acontecimento que abalou a cena cultural mundial no dia 8 de dezembro de 1980. Que acontecimento foi esse?

2. Há outra data indicada pelo autor no texto 1. Qual é seu significado?

3. A organização cronológica do texto 1 pode parecer estranha: primeiro a autora narra os acontecimentos da noite de 8 de dezembro de 1980, depois volta no tempo para resgatar fatos acontecidos em 23 de outubro do mesmo ano.

► Essa organização pode ser explicada se levarmos em consideração as personagens que protagonizam os acontecimentos associados a essas duas datas e também a finalidade do texto. Por quê?

► "Um, dois, três... cinco tiros na noite de 8 de dezembro de 1980, em nova York". O primeiro parágrafo é repetido na parte final do texto 1. Explique que função ele desempenha nesse momento da narrativa em relação à organização cronológica.

4. O texto 2 relata uma série de fatos que marcaram a infância e a adolescência de John.

► Que fatos são esses?

► Explique por que a identificação desses fatos permite compreender não só o título do texto 2 ("Pobre menino Winnie") como a observação final feita por Lennon: "Minha primeira lembrança da vida é um pesadelo".

5. Em meio a tantos acontecimentos negativos, há um que se mostrou, ao contrário, positivo e importantíssimo para o desenvolvimento de John Lennon como músico. Que acontecimento é esse?

6. Por que a autora do texto julgou importante resgatar esse acontecimento do passado de Lennon?

7. O texto 2 termina de modo significativo: "de fato, o sonho ainda estava em gestação". Que "sonho" é esse de que fala o texto?

8. O título do texto 3 já antecipa, para o leitor, qual será seu foco. Explique por quê.

Gabarito dos exercícios sobre Biografia

1. O assassinato do ex-beatle John Lennon em nova York.

2. Em 23 de outubro de 1980, o assassino de John Lennon, Mark David Chapman, pediu demissão do trabalho como segurança num condomínio no Havaí e partiu para nova York.

3. ► A primeira data é marcante por se tratar da noite em que John Lennon, personalidade importantíssima do mundo da música, foi assassinado. Como a finalidade do texto é recontar a história da vida de Lennon, o momento da sua morte passa a ser muito significativo para o conjunto do texto. A segunda data só tem importância no contexto mais geral da vida de Lennon, porque foi nela que o seu futuro assassino pediu demissão do emprego e rumou para Nova Iorque. Naquele momento, ele já planejava o crime que cometeria em dezembro.

► A repetição desse parágrafo marca, para o leitor, a volta do texto ao momento "presente" da narrativa: a noite de 8 de dezembro de 1980. Nos parágrafos anteriores, a autora promoveu uma volta ao passado (23 de outubro de 1980) para tratar dos fatos que deram início à viagem de Mark Chapman a Nova York, onde matou John Lennon. É necessário, portanto, sinalizar que a narrativa voltou a dezembro e reforçar o momento dramático em que Lennon foi baleado.

4. ► O pai, marinheiro, esteve ausente durante toda a infância de Lennon e se separou em definitivo da mãe do menino. Ao casar de novo, ela entregou a tutela de John à irmã e o marido. expulso da escola aos 6 anos, John tornou-se um jovem problemático, entrando no submundo. Aos 13 anos, o tio que o criou faleceu e, aos 17, sua mãe morreu, vítima de atropelamento.

► A autora, com o título escolhido, já chama a atenção do leitor para o caráter negativo da maior parte dos acontecimentos que marcaram os anos de formação de Lennon. Nesse sentido, pode-se entender por que ele considera a lembrança inicial que tem da sua vida "um pesadelo".

5. Com a morte do tio que o criava, sua mãe tentou uma reaproximação. Foi ela quem ensinou a John os primeiros acordes na guitarra que ele ganhou da tia e o encorajou a seguir adiante com a música.

6. Porque é nesse momento que a música deixa de ser o veículo usado por Lennon para expressar sua rebeldia e, por um curto período, ele e a mãe têm um relacionamento mais próximo do que se considera normal. A reconstituição desse episódio permite aos leitores a visão de um Lennon mais humanizado que antes.

7. O sonho de alcançar o sucesso por meio da música. no futuro, quando se juntar a outros três amigos de Liverpool, Lennon fará parte da banda de rock mais famosa do século XX: os Beatles. No momento em que ganhou o violão de sua tia, a ideia de ganhar a vida como músico não passava de um sonho.

8. O sonho vivido por quatro rapazes, de fama e fortuna vindos de sua parceria na música, dissipou-se com a descaracterização do grupo: passaram a usar roupas e cabelos que os individualizassem, o que acentuou suas diferenças. Deixaram de se apresentar ao vivo e, antes da separação definitiva, após a gravação do último disco, ficaram três anos sem se reunir.

1ª fase do Modernismo – Exercícios com gabarito

No artigo de hoje vamos fazer alguns exercícios sobre a primeira fase do Modernismo. Tenho afirmado neste site e no Mais Educativo, meu site dedicado ao entretenimento e educação e no qual tenho publicado atividades relacionadas ao Enem e também ao Ensino Médio e Fundamental, que estudar os períodos literários, sobretudo o Modernismo, pode ajudar bastante na hora do vestibular e também no Enem. Seja pela incorporação de elementos do falar cotidiano, seja pela abordagem menos romântica da sociedade, o Modernismo é um período muito importante na construção da nossa Literatura. Veja então os exercícios e depois confira o gabarito dos mesmos.

Exercícios da primeira fase do Modernismo

>> Leia este trecho do romance Macunaíma para responder às questões de 1 a 3.

Macunaíma

A inteligência do herói [Macunaíma] estava muito perturbada. As cunhãs rindo tinham ensinado pra ele que o sagui-açu não era saguim não, chamava elevador e era uma máquina. De-manhãzinha ensinaram que todos aqueles piados berros cuquiadas sopros roncos esturros não eram nada disso não, eram mas cláxons campainhas apitos buzinas e tudo era máquina. As onças pardas não eram onças pardas, se chamavam fordes hupmobiles chevrolés dodges mármons e eram máquinas. Os tamanduás os boitatás as inajás de curuatás de fumo, em vez eram caminhões bondes autobondes anúncios-luminosos relógios faróis rádios motocicletas telefones gorjetas postes chaminés... Eram máquinas e tudo na cidade era só máquina!

ANDRADE, Mário de. Macunaíma. 30. ed. Belo Horizonte/ Rio de Janeiro: Villa Rica, 1997.

  • sagui-açu: (açú = de grande porte) saguiguaçu = macaco da Mata Atlântica.
  • Mauari: Maguari = ave comum no rio Grande do sul, existente também na Amazônia e nordeste do Brasil.
  • Cunhãs: mulheres jovens, companheiras dos índios; no contexto são prostitutas.
  • Cuquiada: cucar, canto do cuco.
  • esturro: estrondo; vozes de certas feras, rugido, urro.
  • Cláxon: Kláxon = buzina de carro ou alarme elétrico.
  • inajá: grande palmeira nativa do Brasil.
  • Curuatá: gravatá = planta ornamental.

1. Há no trecho uma clara oposição entre dois ambientes distintos. Que ambientes são estes?

2. O trecho transcrito mostra o momento em que o personagem principal acabara de chegar a São Paulo. descreva brevemente as principais características desta cidade que Macunaíma encontra.

3. Quanto à forma, o texto de Mário de Andrade apresenta uma particularidade. Aponte-a e explique porque ela se encaixa no ideário modernista.

>> O texto a seguir refere-se às questões de 4 a 6.

A elite

Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta: Um amor.
Grã-fino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta: Um coió.
Mulher gordaça, filó
De ouro por todos os poros,
Burra como uma porta:
Paciência...
Plutocrata sem consciência,
Nada porta, terremoto
Que a porta do pobre arromba:
Uma bomba.

ANDRADE, Mário de. Lira paulistana. In: Poesias completas. Ed. crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Editora da Universidade de São Paulo, 1987. p. 380.

  • Coió: indivíduo ridículo, tolo.
  • Filó: tule de seda, tecido esvoaçante e vazado, geralmente usado em véus.
  • Plutocrata: pessoa influente pelo dinheiro que possui.

4. Nesse poema, representantes da elite são caracterizados pelo eu lírico.
►  Que pessoas são descritas?
►  Transcreva as expressões que permitem identificar esse grupo social.

5. Além da classe a que pertencem, o eu lírico se refere a uma característica comum às pessoas apresentadas nas três primeiras estrofes.
►  Qual é ela?
►  De que maneira essa caracterização reflete a crítica do eu lírico com relação à elite?
►  O eu lírico resume a imagem que faz dos indivíduos apresentados por meio de expressões. Transcreva-as.
►  O que essas expressões revelam sobre a avaliação que o eu lírico faz da elite brasileira? Justifique.

6. Releia.

Plutocrata sem consciência

►  Por que o eu lírico caracteriza o "plutocrata" com a expressão destacada?
►  O eu lírico diferencia esse representante da elite dos demais, descritos nas estrofes anteriores. Transcreva a expressão que demonstra essa diferença.
►  Explique em que consiste essa diferença.
►  Explique de que maneira essa última estrofe é uma crítica do eu lírico à estrutura social brasileira.

>> O texto a seguir refere-se às questões de 7 a 9.

Gare do infinito

Papai estava doente na cama e vinha um carro e um homem e o carro ficava esperando no jardim.
Levaram-me para uma casa velha que fazia doces e nos mudamos para a sala do quintal onde tinha uma figueira na janela.
No desabar do jantar noturno a voz toda preta de mamãe ia me buscar para a reza do Anjo que carregou meu pai.

ANDRADE, Oswald. Memórias sentimentais de João Miramar. São Paulo: Globo, 2004. p. 74. Gare: estação de trem.

7. O trecho transcrito faz parte de um romance em que a personagem João Miramar relata fatos importantes de sua vida.
►  Que fato é apresentado no texto?
►  "Gare do infinito" é uma expressão metafórica utilizada pelo narrador para se referir ao episódio relatado. Considerando o significado de "gare", de que maneira deve ser compreendido o título do poema?

8. A linguagem utilizada no texto é um dos elementos que constroem a caracterização do narrador-personagem.
►  O que ela sugere a respeito do "momento" da vida do narrador em que ocorre o fato relatado? Justifique sua resposta.
►  No último parágrafo, para se referir à morte do pai, o narrador utiliza diferentes imagens. Transcreva-as.

9. Os romances de Oswald de Andrade adotaram uma estrutura inovadora, que tem semelhanças com a linguagem cinematográfica. essas semelhanças podem ser observadas no texto acima? Explique essa afirmação.

Respostas dos exercícios sobre Modernismo

1. O da floresta ou o fundo do mato virgem e o ambiente urbano, mais especificamente a cidade de São Paulo.

2. Na descrição das características do novo ambiente, são recorrentes as menções às máquinas (sobretudo o automóvel, apresentado na enumeração de várias marcas e modelos famosos na época) e aos incessantes ruídos da modernidade, como buzinas, campainhas, alarmes. As máquinas são comparadas a grandes animais e os ruídos às "vozes" destes animais.

3. Há no texto uma liberdade formal que permite ao autor menor rigor na apresentação de sua escrita, sobretudo na pontuação. Em trechos como "ensinaram que todos aqueles piados berros cuquiadas sopros roncos esturros", Mário não faz uso de vírgulas, procedimento inadequado de acordo com a norma culta da língua, mas lícito de acordo com a proposição principal do Modernismo de liberdade e rompimento do formalismo na escrita.

4.   ► As pessoas caracterizadas são: a moça pertencente à família tradicional, a senhora rica, o grã-fino e o plutocrata.
►  Possibilidades: "bem tratada"; "três séculos de família"; "grã-fino"; "filó de ouro por todos os poros"; "plutocrata".

5.   ► O eu lírico afirma que todos são "burros como uma porta".
►  O eu lírico critica aquilo que considera a característica negativa da elite: a sua ignorância. Dessa forma, deixa evidente qual é a avaliação depreciativa que faz dessa classe social.
►  "Um amor"; "um coió"; "paciência".
►  Essas expressões revelam o olhar irônico do eu lírico em relação a esses representantes da elite. A avaliação pejorativa da "burrice" da moça é reforçada pela expressão utilizada pelo eu lírico; a do grã-fino, caracterizado também como fútil, transforma-o em um tolo; a da "mulher gordaça" é apresentada como algo que deve ser suportado. Dessa forma, o eu lírico satiriza essa classe social naquilo que lhe é característico e que poderia ser visto como positivo: a sua riqueza.

6.    ► Porque ele atribui ao plutocrata a exploração das classes mais baixas (simbolizadas pela referência ao "pobre"). O eu lírico sugere que a posição social está associada à falta de consciência, que garante a manutenção do poder por meio da exploração da miséria.
►  "nada porta".
►  Ao contrário dos demais, apresentados como burros ou fúteis, o plutocrata é caracterizado pela sua esperteza, pela inteligência: ele não é "burro como uma porta". Sua inteligência está em manter seu poder e sua riqueza por meio da exploração dos pobres.
►  Ao caracterizar o plutocrata como um "terremoto" e uma "bomba", o eu lírico critica a desigualdade social existente no Brasil. Para que a elite continue a acumular riquezas, é necessário garantir a miséria das classes baixas por meio de sua exploração. O efeito social é desastroso: o plutocrata atua sobre o pobre como uma "bomba".

7.    ► A morte do pai de João Miramar, depois de uma doença.
►  O título faz uma alusão metafórica à morte do pai do protagonista por meio da expressão utilizada, pois associa esse acontecimento a uma partida definitiva do pai doente para uma estação do infinito.

8.   ► A linguagem utilizada no texto apresenta uma estrutura e uma organização das frases próprias da fala de uma criança, o que indica que o narrador relata um episódio ocorrido na sua infância a partir de uma ótica e de uma linguagem próprias dessa fase. Observando a linguagem, percebemos que há repetição da conjunção e no primeiro parágrafo; que as informações apresentadas no segundo parágrafo são "truncadas" e revelam uma percepção de mundo característica de uma criança. Além disso, o uso das expressões "papai" e "mamãe", pelo narrador, contribui para marcar essa visão de mundo infantil.
►  As imagens são as seguintes: "voz toda preta de mamãe"; "Anjo que carregou meu pai."

9 Sim. O texto constitui um capítulo curto do romance em que o narrador-protagonista narra suas memórias. A situação apresentada dessa forma sintética e metafórica dá à narrativa características da linguagem cinematográfica, como se representasse uma sequência de cenas encadeadas que compõem um mosaico em que a realidade é flagrada em rápidos flashes. Percebe-se, no texto, a característica mais marcante da escrita oswaldiana: a capacidade de construção de um máximo de imagens num mínimo espaço verbal.