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Quente e frio – Exercício de interpretação de textos com gabarito comentado [21]


TEXTO XXXVIII

QUENTE E FRIO

Me dizem que, de acordo com uma convenção internacional, a torneira de um lado é sempre a da água quente e a do outro, logicamente, a da água fria. Mas nunca me lembro quais são os lados. Não usam mais os  velhos  Q e F, imagino, para não descriminar* os analfabetos, nem as cores vermelho para quente e azul para fria, para não descriminar* os daltônicos. Mas e nós, os patetas? Também precisamos tomar banho.
Nunca nos lembramos de que lado é o quente e de que lado é o frio e estamos condenados a sustos constantes ou então a demorada experimentação  até  acertar  a  temperatura  da  água.  Isso  quando  os controles não estão concentrados numa única supertorneira de múltiplas funções, na qual você pode escolher volume e temperatura numa combinação de movimentos sincronizados depois de completar um curso de aprendizagem do qual também sairá capacitado a pilotar um Boeing.
A  verdade  é  que  existe uma conspiração para afastar do mundo do consumo moderno as pessoas, digamos, neuronicamente prejudicadas. Em alguns casos a depuração foi longe demais e o resultado é que hoje existem, comprovadamente, apenas dezessete pessoas em todo o mundo que sabem programar o  timer para gravação num videocassete. Destas, quinze   só    revelam   o   que   sabem   por   muito   dinheiro,  uma está muito doente e a outra se retirou para o Tibete e não quer ser incomodada. Na maioria dos casos, no entanto, as instruções para uso são dirigidas a pessoas normais, com um mínimo de acuidade e bom senso - quer dizer, são contra nós!  Mas eu já me resignara a não saber programar o  timer, ou sequer saber   o   que   era   um   timer, ou   jamais   usar   a tecla Num Lock com medo de trancar todos os computadores num raio de um quilômetro, desde que me sentisse confortável no mundo que eu dominava. Como, por exemplo, no chuveiro. E então a modernidade chegou às torneiras, e quente e frio também se transformaram em desafios intelectuais. Quente é a da esquerda e fria é a da direita, é isso? Ou é o contrário? É uma conspiração. (Luís F. Veríssimo, em O Globo, 13/1/02)

* Escrita assim na página eletrônica consultada. O perfeito é discriminar.

1) O texto nos fala:
a) da inépcia de todos os analfabetos
b) do problema dos daltônicos
c) da dificuldade em se decidir entre água fria e água quente
d) da dificuldade trazida pela modernidade 
e) do caráter obsoleto de determinados aparelhos domésticos

2) O tom predominante no texto é de:
a) perplexidade
b) humorismo
c) decepção
d) realismo
e) determinismo

3) O texto é formado a partir de hipérboles. Assinale o trecho que não denota nenhum tipo de exagero.
a) “Nunca nos lembramos de que lado é o quente e de que lado é o frio...” (/. 7)
b) “...do qual também sairá capacitado a pilotar um Boeing.” (/. 13)
c) “...existem, comprovadamente, apenas dezessete pessoas em todo o mundo...” (/. 17/18)
d) “Mas eu já me resignara a não saber programar o timer...” (/. 23/24)
e) “É uma conspiração.” (/. 30)

4) Pelo visto, a supertorneira:
a) simplifica as coisas.
b) agrada a todos.
c) é mais um elemento complicador.
d) não apresenta grandes utilidades.
e) é uma peça totalmente inútil.

5) Embora brincando, o autor se inclui entre:
a) os analfabetos
b) os daltônicos
c) as pessoas neuronicamente prejudicadas
d) as pessoas normais
e) as que só revelam o que sabem por muito dinheiro

6) Para o autor, não se usam mais Q e F ou o vermelho e o azul para evitar:
a) que as pessoas tenham muitas coisas para decorar.
b) o crescimento do número de patetas.
c) que as pessoas neuronicamente prejudicadas fiquem sem entender o funcionamento das torneiras.
d) a marginalização de determinados indivíduos.
e) que as pessoas normais se sintam discriminadas.

7) O texto fala da dificuldade do autor no dia-a-dia. Assinale o que não se enquadra nesse caso.
a) o quente e o frio da torneira 
b) o uso da supertorneira
c) dirigir um Boeing
d) o timer do videocassete
e) a tecla Num Lock

8) Na realidade, o problema do autor seria a falta de:
a) inteligência
b) paciência
c) humildade
d) concentração
e) memória

9) Que palavra pode substituir “acuidade” (l. 22) sem prejuízo do sentido original do texto?
a) originalidade
b) perspicácia
c) inteligência
d) vontade
e) persistência

10) Antes do desafio intelectual das novas torneiras, o autor se sentia:
a) tranqüilo
b) esperançoso
c) desanimado
d) um pateta
e) inseguro

11) O eufemismo é a figura que consiste em suavizar uma idéia desagradável. Assinale o trecho em que isso ocorre.
a) “Não usam mais os velhos Q e F...” (/. 3/4)
b) “Mas e nós, os patetas?” (/. 6)
c) “Também precisamos tomar banho.” (/. 6)
d) “...as pessoas, digamos, neuronicamente prejudicadas.” (/. 15/16)
e) “E então a modernidade chegou às torneiras...” (/. 27/28)

Gabarito comentado

Texto XXXVIII

1) Letra d
Todo o texto se baseia, com muito humor, na dificuldade que tem o autor em utilizar determinados aparelhos e objetos do mundo  moderno: as torneiras de água quente ou fria, o  timer  nos videocassetes, a tecla  Num Lock  nos computadores.

2) Letra b
É uma questão fácil. O autor brinca com o conceito de modernidade e a possível dificuldade dos usuários de aparelhos modernos. Ele mesmo se diz incapaz de reconhecer coisas sabidamente simples.

3) Letra d
A hipérbole, figura de linguagem, aparece em quatro alternativas, de maneira mais ou menos evidente. Na letra a, que talvez possa confundir o leitor, ela se expressa na palavra nunca. Na letra d não existe hipérbole, pois o fato de alguém não saber programar o timer não constitui exagero algum.

4) Letra c
Com bom humor, o autor diz que, para saber usar a supertorneira, é necessário fazer um curso de aprendizagem bastante difícil. Daí ser ela um elemento complicador na vida dos usuários.

5) Letra c
As pessoas neuronicamente prejudicadas seriam aquelas com pouca inteligência, entre as quais ele, brincando, se inclui, já que não consegue fazer determinadas coisas aparentemente simples, como se vê ao longo do texto.

6) Letra d 
No primeiro parágrafo do texto, o autor diz que o uso das letras Q e F marginalizaria os analfabetos, pois eles não reconhecem as letras; afirma também que o emprego das cores marginalizaria os daltônicos, que não conseguem distingui-las.

7) Letra c
O Boeing aparece apenas como ilustração de uma dificuldade sentida pelo autor. É claro que, em momento algum, ele fala na possibilidade de dirigir um avião.

8) Letra e
O autor afirma que não consegue gravar a posição das torneiras de água quente ou fria, entre outras coisas. É, nitidamente, um problema de memória.

9) Letra b
Questão de sinonímia.  Acuidade  pode, dependendo do texto, como este que estamos analisando, significar perspicácia, sagacidade, agudeza de espírito.

10) Letra a
Leia de novo o final do texto. Lá se diz que o autor estava confortável, ou seja, tranqüilo, ao usar, por exemplo, o chuveiro. Aí surgem os novos tipos de torneira.

11) Letra d
O eufemismo aparece na expressão “neuronicamente prejudicadas”, maneira mais suave de dizer sem inteligência, ignorantes etc.

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